terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

GESTÃO, ALTERNÂNCIA DE PODER E HARMONIA INSTITUCIONAL

 

Uma reflexão à luz da Maçonaria

Ednardo Sousa Bezerra Junior

A Maçonaria, enquanto instituição iniciática, filosófica e educativa, sempre compreendeu que o poder só é legítimo quando exercido com sabedoria, equilíbrio e espírito de serviço. Essa compreensão nos convida a refletir sobre o conceito de gestão democrática e, especialmente, sobre a alternância de poder, não apenas no campo político, mas também nas organizações sociais, educacionais e, de modo muito próprio, nas Lojas Maçônicas.

Em diferentes espaços da vida em sociedade, a gestão representa a forma como decisões são tomadas, responsabilidades são assumidas e objetivos coletivos são conduzidos. No campo político, a alternância de poder é um dos pilares da democracia, pois impede a concentração excessiva de autoridade, renova ideias e garante que o poder permaneça como instrumento do bem comum, e não como propriedade de indivíduos ou grupos.

Esse mesmo princípio pode ser observado na gestão escolar, onde a participação da comunidade e a rotatividade das lideranças favorecem a inovação pedagógica e a formação cidadã; nas associações civis, onde o poder emana da confiança dos associados e se sustenta na transparência e no compromisso coletivo; e, de maneira singular, na gestão de uma Loja Maçônica.

Na Maçonaria, a alternância de poder não é apenas um procedimento administrativo ela é um exercício pedagógico e moral. Os cargos não existem para enaltecer o indivíduo, mas para servir à Loja, fortalecer a harmonia e garantir a continuidade dos trabalhos. O Venerável Mestre, assim como os demais Oficiais, recebe temporariamente a honra e a responsabilidade de conduzir os Obreiros, sabendo que o comando é passageiro, mas a Instituição é permanente.

Essa rotatividade de funções permite que diferentes Irmãos desenvolvam virtudes essenciais à liderança maçônica: humildade, escuta, prudência, tolerância e senso de coletividade. Ao mesmo tempo, impede o personalismo, as vaidades e a cristalização de práticas que possam enfraquecer o espírito fraterno da Loja.

Diferentemente da gestão política partidária, onde o conflito de ideias é inerente ao processo, a gestão maçônica se orienta pela busca do consenso, pelo respeito às tradições e pela preservação da harmonia. A alternância de poder, nesse contexto, não rompe com a identidade da Loja, mas a fortalece, pois assegura que o trabalho iniciado por um Irmão seja continuado por outro, sempre sob os mesmos princípios, valores e Landmarks.

É importante compreender que liderar, na Maçonaria, não é mandar, mas servir. O poder exercido com sabedoria é aquele que forma novos líderes, prepara sucessores e garante que a Loja não dependa de nomes, mas de princípios. Uma Loja verdadeiramente forte é aquela que funciona bem independentemente de quem ocupa os cargos, pois está alicerçada na participação consciente de todos os seus membros.

Uma das responsabilidades mais nobres dos Mestres Instalados é orientar aqueles que recentemente alcançaram o Grau de Mestre. A experiência adquirida ao longo do tempo não deve ser guardada como privilégio, mas compartilhada como ensinamento, exemplo e estímulo à participação consciente na vida administrativa da Loja.

Cabe aos Mestres mais experientes incentivar os Mestres mais novos a compreenderem que a Maçonaria não se sustenta apenas nos trabalhos ritualísticos, mas também no compromisso com a gestão, com o planejamento e com a condução responsável da Oficina. Participar da administração da Loja é, igualmente, um ato de aperfeiçoamento moral e de serviço à Ordem.

Ao orientar e incluir, os Mestres Instalados contribuem para a formação de novas lideranças, fortalecendo a continuidade dos trabalhos e evitando que o conhecimento fique restrito a poucos. A Loja cresce quando todos se sentem parte do processo, quando há espaço para aprender, errar, corrigir e evoluir sob a orientação fraterna dos que já trilharam esse caminho.

Nesse sentido, é igualmente necessário refletir sobre o cuidado com a perpetuação de pequenos grupos no exercício do poder. A concentração prolongada de funções nas mãos de poucos Irmãos, ainda que bem-intencionada, pode enfraquecer a harmonia, limitar a participação e contrariar o princípio da alternância, tão caro à tradição maçônica.

A Maçonaria nos ensina que o poder não deve se cristalizar, mas circular; não deve separar, mas unir; não deve servir a grupos, mas à Loja como um todo. Quando a administração se abre à participação e à renovação, preserva-se a fraternidade, fortalece-se a democracia interna e garante-se que a Instituição permaneça maior do que quaisquer interesses individuais.

Que os Mestres Instalados, conscientes de sua responsabilidade, sejam exemplos de humildade, orientação e desprendimento, formando sucessores e preparando o futuro da Loja. E que os Mestres mais novos compreendam que assumir responsabilidades é parte do caminho do aperfeiçoamento, da construção coletiva e do verdadeiro espírito maçônico.

Assim, ao refletirmos sobre gestão democrática e alternância de poder, reafirmamos uma verdade essencial da Ordem: a Maçonaria ensina, pelo exemplo, que a autoridade só é legítima quando temporária, compartilhada e exercida com retidão moral.

Espero essa reflexão nos ajude a compreender que cada função ocupada em Loja é uma oportunidade de crescimento interior e de serviço ao coletivo, e que a alternância não representa perda, mas continuidade, aprendizado e fortalecimento da Instituição.

 

GESTÃO, ALTERNÂNCIA DE PODER E HARMONIA INSTITUCIONAL

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