sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A MAÇONARIA ALÉM DAS COLUNAS DO TEMPLO: RESPEITO, TOLERÂNCIA E RESPONSABILIDADE NO MUNDO PROFANO

 


Ednardo Sousa Bezerra Jr.

M∴M∴

No Ritual de Aprendiz, uma passagem desperta em mim uma reflexão que considero importante fazer uma reflexão. Quando o Venerável Mestre pergunta ao Irmão Chanceler “o que é a Maçonaria”, recebe como resposta que a maçonaria é, “uma instituição que tem por objetivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à crença de cada um”. Diante dessa definição, surge uma questão que merece nossa atenção. Será que estamos aplicando esses princípios apenas dentro do templo, ou estamos verdadeiramente levando-os para a nossa vida cotidiana?

Acredito que a Maçonaria não deve ser compreendida apenas como uma instituição na qual aprendemos símbolos, participamos de rituais e convivemos fraternalmente com nossos Irmãos. Ela deve representar, sobretudo, um compromisso permanente com o aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual de cada um de nós.

O templo é o espaço em que nos reunimos para estudar, refletir e trabalhar simbolicamente sobre a pedra bruta. Entretanto, no mundo profano, em nossas casas, no trabalho, nas relações sociais e na participação na vida pública, somos constantemente chamados a demonstrar os resultados desse trabalho de lapidação.

O amor, a tolerância e o aperfeiçoamento dos costumes não podem permanecer restritos ao discurso. Precisam manifestar-se em nossas palavras, escolhas e atitudes. Quando nos referimos a uma pessoa de maneira ofensiva, utilizando expressões homofóbicas, injúrias raciais ou manifestações de intolerância religiosa, estamos nos afastando dos princípios de respeito à dignidade humana que afirmamos defender. Da mesma forma, quando desqualificamos alguém simplesmente por possuir uma preferência política diferente da nossa, corremos o risco de transformar nossas convicções pessoais em instrumentos de intolerância.

É legítimo discordar, criticar ideias, questionar decisões e denunciar irregularidades. O que não devemos confundir é o direito de discordar com o propósito de humilhar, discriminar ou ofender. Um homem de bons costumes não é aquele que concorda com todos, mas aquele que consegue discordar sem abandonar o respeito, defender suas convicções sem desprezar as convicções alheias e reconhecer que sua própria maneira de pensar não lhe concede o monopólio da verdade. A tolerância não exige que renunciemos às nossas ideias; exige que reconheçamos a dignidade de quem pensa de maneira diferente.

Outro princípio presente na definição de Maçonaria é o respeito à autoridade. Esse ensinamento merece ser analisado com cuidado, especialmente diante das relações que mantemos com as instituições e com aqueles que exercem funções de responsabilidade pública. No convívio social, existem autoridades e estruturas hierárquicas estabelecidas por leis, regimentos, estatutos e outros instrumentos normativos. O respeito a essas estruturas contribui para a organização da sociedade, para a convivência coletiva e para o funcionamento das instituições. Entretanto, respeitar uma autoridade não significa considerá-la infalível, concordar com todas as suas decisões ou deixar de questionar possíveis irregularidades. Respeitar a autoridade não é renunciar ao pensamento crítico; é exercer a crítica com responsabilidade, fundamento e respeito à dignidade humana.

Se consideramos que alguém que ocupa um cargo público praticou um ato irregular, temos o direito e, em determinadas circunstâncias, o dever de questioná-lo. Podemos apresentar denúncias, solicitar esclarecimentos e cobrar providências pelos meios legalmente estabelecidos. O que precisamos evitar é transformar suspeitas em condenações antecipadas ou utilizar expressões ofensivas como se a nossa opinião pessoal fosse suficiente para estabelecer a culpa de alguém.

Chamar indiscriminadamente uma autoridade de ladrão, por exemplo, sem fundamentos que sustentem essa acusação, pode representar uma manifestação irresponsável e incompatível com o compromisso de agir com prudência e honestidade. Isso não significa que toda crítica contundente seja desrespeitosa, nem que as autoridades estejam acima do julgamento da sociedade. Significa que devemos distinguir a crítica fundamentada do insulto, a cobrança legítima da perseguição pessoal e a responsabilização legal da condenação precipitada.

O respeito às hierarquias institucionais deve caminhar junto com a igualdade perante a lei e com a responsabilidade de todos por seus atos. Quem ocupa uma posição de autoridade também está sujeito às normas que regem sua função e deve responder por eventuais irregularidades conforme os procedimentos aplicáveis. O respeito institucional não deve servir para proteger privilégios, silenciar questionamentos ou encobrir injustiças, mas contribuir para que as relações sejam conduzidas com civilidade, responsabilidade e observância das normas legítimas.

Essa mesma coerência entre princípios e atitudes precisa estar presente em nossa vida familiar e conjugal. Afinal, de que adianta defender a fraternidade dentro da Loja se, fora dela, tratamos com desprezo aqueles que não compartilham de nossas opiniões? De que adianta falar de igualdade se utilizamos expressões discriminatórias? De que adianta defender a liberdade de consciência se não respeitamos as crenças de outras pessoas? E de que adianta professar o amor, a honestidade e a lealdade se nossas atitudes dentro de casa contradizem esses valores?

Nesse contexto, considero importante refletirmos também sobre a fidelidade conjugal. A traição matrimonial, quando rompe deliberadamente os compromissos de confiança, honestidade e lealdade assumidos entre o casal, não é compatível com os princípios de conduta moral que o maçom se propõe a cultivar. A vida conjugal, assim como qualquer relação humana significativa, exige responsabilidade, respeito mútuo e sinceridade. Não se trata de afirmar que o maçom seja um homem sem falhas, mas de reconhecer que o compromisso com o aperfeiçoamento moral exige coerência entre aquilo que professamos e a maneira como conduzimos nossas relações mais íntimas.

A esposa e os filhos não devem encontrar em nós apenas homens que conhecem os ensinamentos da Ordem, mas pessoas cuja conduta transmite confiança, segurança e respeito. A fidelidade, nesse sentido, vai além da ausência de uma traição: envolve honrar a palavra empenhada, agir com transparência e não utilizar a confiança de quem nos ama em benefício de interesses pessoais. Não seria coerente defender a honestidade no templo e agir de maneira desonesta no ambiente familiar, assim como não seria coerente exigir respeito dos outros sem oferecê-lo àqueles com quem compartilhamos a vida.

A família, o ambiente profissional e a sociedade constituem espaços concretos para a prática dos princípios que estudamos. É nesses lugares que o amor deixa de ser apenas uma palavra, a tolerância deixa de ser apenas um conceito e a igualdade passa a ser uma atitude. Da mesma forma, no exercício da cidadania, devemos procurar agir com equilíbrio, respeitando as instituições, as diferenças e os direitos dos demais, sem abrir mão de nossa responsabilidade de questionar injustiças e cobrar o cumprimento das leis.

O maçom não precisa ser um homem sem opiniões ou posicionamentos. Precisa, sim, procurar ser um homem cuja maneira de expressar suas opiniões seja compatível com os princípios que afirma defender. Não devemos utilizar os ensinamentos maçônicos apenas para avaliar o comportamento dos outros. Precisamos, antes de tudo, aplicá-los a nós mesmos. O verdadeiro trabalho sobre a pedra bruta exige coragem para reconhecer nossos preconceitos, controlar nossos impulsos, rever nossos julgamentos, honrar nossos compromissos e compreender que a coerência moral se constrói diariamente.

A reflexão que apresento não tem a intenção de julgar a conduta de nenhum Irmão em particular, mas de convidar cada um de nós a examinar a própria consciência. Se a Maçonaria tem por objetivo contribuir para tornar feliz a humanidade, precisamos compreender que essa missão começa nas pequenas atitudes e nas relações que construímos todos os dias.

O amor deve orientar nossas ações. A tolerância deve moderar nossas reações. O aperfeiçoamento dos costumes deve conduzir nossa busca por uma conduta mais justa. A igualdade deve recordar-nos que nenhuma pessoa perde sua dignidade por pensar, crer ou viver de maneira diferente da nossa.

O respeito à autoridade deve ser compreendido como parte de uma convivência institucional responsável, sem se transformar em submissão cega, assim como a liberdade de crítica não deve ser confundida com licença para ofender ou difamar. A honestidade e a lealdade, por sua vez, devem estar presentes tanto em nossas relações públicas quanto em nossos compromissos familiares e conjugais.

Acredito que o maior desafio de um maçom não seja apenas compreender os ensinamentos que recebe, mas transformá-los em hábitos, atitudes e exemplos. Que possamos, portanto, sair de nossas sessões levando conosco mais do que o conhecimento dos símbolos e das palavras ritualísticas. Que levemos o compromisso de sermos melhores pais, melhores esposos, melhores profissionais, melhores cidadãos e, sobretudo, seres humanos mais conscientes de nossas responsabilidades.

Porque o trabalho maçônico não termina quando se encerram as portas do templo. É justamente quando retornamos ao mundo profano que temos a oportunidade de demonstrar o valor dos ensinamentos que recebemos. Que nossas palavras sejam respeitosas, nossas críticas sejam responsáveis, nossas atitudes sejam justas, nossos compromissos sejam honrados e nossos exemplos sejam coerentes com os princípios que professamos.

Que cada um de nós continue trabalhando sobre a própria pedra bruta, não para se considerar superior aos demais, mas para se tornar, a cada dia, uma pessoa mais digna, fraterna, tolerante, honesta e comprometida com o bem da humanidade.

 

T∴F∴A

terça-feira, 19 de maio de 2026

As paredes são só um detalhe: o verdadeiro investimento está nas pessoas

Profesoor Ednardo Sousa Bezerra Júnior

Vivemos um tempo em que muito se fala sobre inovação, tecnologia, inteligência artificial, estruturas modernas e crescimento acelerado. Escolas são avaliadas pelos prédios, empresas pelas instalações, cidades pelos grandes empreendimentos. Entretanto, existe uma verdade silenciosa que atravessa todas essas discussões: paredes não educam, máquinas não acolhem e estruturas, por si só, não transformam vidas. O que verdadeiramente move a humanidade é o capital humano.

Enquanto observava o esforço de construção de espaços físicos, veio-me à mente uma frase simples, mas profundamente necessária: “As paredes são só um detalhe; o investimento maior deve ser no capital humano.” E talvez nunca tenhamos precisado tanto refletir sobre isso quanto agora.

O educador brasileiro Paulo Freire afirmava: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam em comunhão.”

A neurociência já demonstrou que o cérebro humano não aprende apenas através de informações. Aprendemos principalmente por meio das relações emocionais. O vínculo afetivo, o sentimento de pertencimento, a segurança emocional e a interação social ativam áreas fundamentais do cérebro ligadas à memória, à atenção e à aprendizagem.

É por isso que um professor marcante permanece na memória durante décadas, enquanto muitos conteúdos esquecemos com o tempo. Não é apenas o assunto ensinado que transforma uma criança, é a forma como ela se sente diante de quem ensina.

Uma escola pode possuir laboratórios modernos, salas climatizadas e equipamentos de última geração. Tudo isso é importante. Mas nenhuma tecnologia substitui o olhar atento de um educador que percebe a tristeza silenciosa de um aluno. Nenhuma máquina consegue reproduzir a sensibilidade de um abraço nos dias difíceis, o incentivo sincero diante do medo ou a alegria compartilhada nas pequenas conquistas. Gente aprende com gente.

O avanço da inteligência artificial desperta fascínio e também preocupações. Muitos imaginam um futuro em que máquinas substituirão completamente o trabalho humano. Porém, existe algo impossível de ser automatizado: a experiência emocional genuína.

António Damásio, médico neurologista, neurocientista português que trabalha no estudo do cérebro e das emoções humanas afirma: “Não somos máquinas pensantes que sentem; somos máquinas sentimentais que pensam.”

A Inteligência Artificial pode organizar informações, acelerar processos e oferecer suporte em inúmeras tarefas. Mas ela não sente. Não ama. Não percebe as emocões com profundidade humana. Não compartilha memórias afetivas. Não constrói vínculos reais.

Um algoritmo jamais substituirá, o carinho de um amigo verdadeiro, a fraternidade sincera entre irmãos, o colo acolhedor da família, o cuidado silencioso de quem permanece ao nosso lado nos momentos difíceis, nem mesmo a presença transformadora de um professor que acredita em alguém antes mesmo dessa pessoa acreditar em si. A essência humana continua sendo insubstituível.

O cérebro humano precisa de afeto para florescer, o psicólogo Lev Vygotsky defendia que: “É através dos outros que nos tornamos nós mesmos.”

A neuropsicologia explica que o desenvolvimento emocional saudável interfere diretamente na capacidade cognitiva. Crianças emocionalmente acolhidas tendem a apresentar maior segurança, melhor desenvolvimento social e mais facilidade de aprendizagem.

O afeto não é um detalhe secundário no processo educativo e social. Ele é estrutura. Um cérebro constantemente submetido à pressão, ao abandono emocional ou à ausência de vínculos significativos entra em estado de alerta. Nesse estado, aprender, criar e sonhar tornam-se tarefas muito mais difíceis. Por isso, investir em pessoas é investir no futuro da humanidade.

Isso vale para escolas, empresas, famílias e relações sociais. Ambientes humanizados produzem indivíduos mais saudáveis emocionalmente, mais criativos e mais preparados para enfrentar os desafios da vida.

Talvez o maior erro da sociedade moderna seja acreditar que evolução significa apenas avanço tecnológico. O verdadeiro progresso acontece quando o desenvolvimento material caminha ao lado da valorização humana.

O sociólogo Zygmunt Bauman alertava: “As relações humanas já não aquecem os espaços sociais como antes.” Não adianta construir prédios grandiosos enquanto pessoas adoecem emocionalmente em silêncio.
Não basta criar sistemas inteligentes se estamos desaprendendo a ouvir, acolher e compreender uns aos outros. A humanidade precisa urgentemente reaprender o valor da presença.

Precisamos entender que, um elogio pode salvar um dia, uma escuta atenta pode aliviar dores invisíveis, um abraço sincero pode reconstruir forças, uma palavra de incentivo pode mudar destinos.

Talvez a humanidade esteja vivendo um dos períodos mais avançados da história em termos tecnológicos. Nunca tivemos tantas ferramentas, tantas possibilidades e tanto acesso à informação. Ainda assim, cresce silenciosamente a carência por algo que nenhuma máquina consegue produzir: presença humana verdadeira.

A neurociência nos mostra que emoções constroem memórias, vínculos fortalecem aprendizagens e relações saudáveis moldam o desenvolvimento humano. A educação, a família e a convivência social continuam sendo territórios essencialmente humanos, onde o afeto, a escuta e o acolhimento possuem um valor impossível de ser automatizado.

Por isso, investir apenas em estruturas físicas é insuficiente. Paredes podem proteger do sol e da chuva, mas não ensinam valores, não despertam sonhos e não formam caráter. Quem transforma vidas são as pessoas.

Um professor que acredita em seu aluno. Uma família que acolhe.
Um amigo que permanece. Um irmão que estende a mão. Uma comunidade que aprende a caminhar unida. Nenhuma tecnologia substituirá o calor humano, a sensibilidade de um abraço, o conforto de uma palavra sincera ou a força emocional de alguém que simplesmente decide estar presente.

No fim, o verdadeiro progresso da humanidade não será medido apenas pelos prédios que construirmos, mas pela capacidade que teremos de continuar humanos dentro deles.

 

“O futuro não será definido pelas máquinas que construiremos, mas pela humanidade que conseguiremos preservar. Porque as paredes são apenas detalhes. O investimento maior sempre deverá ser nas pessoas.”

domingo, 26 de abril de 2026

Educação além dos números:

 

Educação além dos números:

o verdadeiro impacto do professor na vida dos alunos

 

Prof. Ednardo Sousa Bezerra Jr

 

Você já parou para pensar se uma nota de 0 a 10 é capaz de medir o verdadeiro aprendizado de uma criança? Em um sistema cada vez mais orientado por resultados mensuráveis, a educação além dos números surge como um convite urgente à reflexão. Afinal, será que estamos formando alunos ou apenas produzindo indicadores?

A cultura escolar, historicamente, valorizou o desempenho cognitivo e os resultados quantitativos. No entanto, essa visão é limitada. As chamadas competências socioemocionais, como empatia, resiliência e colaboração, têm sido reconhecidas como essenciais para o desenvolvimento integral dos estudantes. Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que essas habilidades influenciam diretamente o desempenho acadêmico e a qualidade das relações em sala de aula.

Essa perspectiva dialoga diretamente com o pensamento de Paulo Freire, que defendia uma educação humanizadora. Como ele afirma: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” Essa visão rompe com a lógica puramente conteudista e reforça a importância de um ensino significativo.

O problema é que essas dimensões não cabem em um boletim. Uma criança que aprende a lidar com frustrações, a trabalhar em equipe ou a respeitar o outro está desenvolvendo competências fundamentais para a vida, mas dificilmente isso será traduzido em uma nota. Esse modelo tradicional de avaliação, centrado apenas em números, reduz a complexidade do aprendizado humano a dados frios e superficiais.

O papel do professor, nesse contexto, vai muito além da transmissão de conteúdo. Ele é mediador de experiências, construtor de vínculos e agente de transformação social. Ao estimular o pensamento crítico, a autonomia e a criatividade, o educador contribui para a formação de indivíduos mais preparados para os desafios do século XXI.

Nesse sentido, as ideias de Lev Vygotsky reforçam a importância da interação no processo educativo. Como destaca o autor: “O aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daqueles que as cercam.” Ou seja, aprender vai muito além de acertar respostas, envolve relações, contexto e mediação.

Além disso, evidências apontam que alunos que desenvolvem competências socioemocionais apresentam melhores resultados acadêmicos e maior sucesso ao longo da vida. Isso reforça a ideia de que educar não é apenas ensinar conteúdos, mas preparar para a vida.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável, que tipo de capital humano estamos formando? Se a escola continuar priorizando apenas números, corre o risco de negligenciar aspectos fundamentais da formação humana. Por outro lado, quando valoriza o desenvolvimento integral, contribui para a construção de uma sociedade mais justa, empática e consciente, exatamente como propõe Paulo Freire ao afirmar: “A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.”

Caminhos possíveis já existem. A avaliação formativa, por exemplo, permite acompanhar o progresso do aluno de maneira mais ampla, considerando não apenas o resultado final, mas todo o processo de aprendizagem. Práticas pedagógicas mais significativas, que integrem emoção, experiência e conhecimento, também se mostram mais eficazes.

No fim das contas, a verdadeira educação não se mede, ela se percebe. Está no olhar confiante do aluno, na sua capacidade de argumentar, na sua postura diante da vida. A educação além dos números nos lembra que ensinar é, acima de tudo, transformar.

E você, educador, está formando alunos para provas ou para a vida?


Referências


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

domingo, 12 de abril de 2026

Sua Mente Está Trabalhando a Seu Favor?

Prof. Ednardo Sousa Bezerra Jr


Ao longo do dia, você já parou para perceber quais pensamentos ocuparam a maior parte da sua mente? Essa reflexão, embora simples, pode revelar muito sobre sua forma de viver, decidir e sentir.

A neurociência explica que o cérebro humano possui um mecanismo natural chamado viés de negatividade. Trata-se de uma tendência automática de focar mais no que pode dar errado do que no que está dando certo. Esse padrão tem origem evolutiva: nossos ancestrais precisavam estar constantemente atentos aos perigos para sobreviver.

O problema é que, no mundo atual, esse mesmo mecanismo continua ativo, mas agora direcionado, muitas vezes, a preocupações exageradas e até imaginárias.

Quando você alimenta pensamentos negativos com frequência, o cérebro reage como se estivesse diante de uma ameaça real. Isso ativa a liberação de cortisol, o hormônio do estresse, que, em níveis elevados, pode comprometer a concentração, a tomada de decisões e até a saúde física.

Por outro lado, a ciência também mostra que é possível treinar a mente. Esse processo é conhecido como neuroplasticidade, é a capacidade que o cérebro tem de se reorganizar com base nos padrões que você repete diariamente. Em outras palavras, aquilo que você pensa com frequência molda, literalmente, o funcionamento do seu cérebro.

Ao direcionar sua atenção para pensamentos mais construtivos, realistas e equilibrados, você fortalece conexões neurais ligadas ao bem-estar, à clareza mental e à produtividade.

É nesse contexto que o balanço diário se torna uma ferramenta poderosa. Reservar alguns minutos para refletir sobre o seu dia permite identificar padrões de pensamento, reconhecer excessos de preocupação e, principalmente, fazer escolhas mais conscientes sobre onde colocar sua energia mental.

Algumas perguntas podem guiar esse processo:

  • Meus pensamentos hoje me impulsionaram ou me limitaram?
  • Quanto tempo dediquei a preocupações que nem se concretizaram?
  • O que posso ajustar para amanhã?

Não se trata de ignorar problemas, mas de evitar que eles ocupem um espaço maior do que realmente merecem.

A qualidade da sua vida está diretamente relacionada à qualidade dos seus pensamentos. Pequenas mudanças na forma de pensar geram grandes transformações ao longo do tempo.

No fim das contas, sua mente é um campo fértil.
E tudo o que você cultiva, cresce.

A pergunta que fica é: você está alimentando sua mente a seu favor ou contra você?

terça-feira, 7 de abril de 2026

Você Ainda Consegue Ler com Profundidade? O Impacto Silencioso do Mundo Digital

Prof. Ednardo Jr. 


Entenda por que alunos e adultos estão perdendo o foco e o que fazer para reverter esse cenário.

 

Vivemos em uma era marcada pela velocidade. Informações chegam a todo instante, notificações competem pela nossa atenção e o tempo parece cada vez mais fragmentado. Nesse cenário, surge uma questão inquietante: será que essa intensa exposição ao ambiente digital está comprometendo nossa capacidade de leitura profunda?

A resposta, ainda que incômoda, tende a ser sim.

A leitura profunda é aquela que exige concentração, reflexão e envolvimento contínuo com o texto. Não se trata apenas de decodificar palavras, mas de interpretar, analisar, questionar e estabelecer conexões. É o tipo de leitura que constrói pensamento crítico, amplia repertório e fortalece a aprendizagem significativa.

No entanto, esse hábito vem sendo silenciosamente substituído por uma leitura rápida, superficial e muitas vezes dispersa.

O ambiente digital favorece exatamente o oposto da profundidade. Ao navegar na internet, somos constantemente estimulados a pular de um conteúdo para outro. Um link leva a outro, que leva a um vídeo, que leva a uma notificação, criando um ciclo de distração contínua.

Com o tempo, essa dinâmica afeta diretamente a forma como lemos.

Muitos leitores relatam dificuldade em manter o foco em textos mais longos. A mente “pede” estímulos constantes, e o silêncio necessário para a leitura profunda passa a causar desconforto.

Além disso, a leitura digital muitas vezes acontece de forma multitarefa. É comum ler enquanto se responde mensagens ou se alterna entre várias abas abertas, reduzindo significativamente a compreensão.

As consequências vão além do hábito de leitura. Elas impactam diretamente a educação, o desenvolvimento cognitivo e a capacidade de argumentação.

Mas é importante destacar: a tecnologia não é a vilã. O problema está na forma como nos relacionamos com ela.

Diante desse cenário, surge uma necessidade urgente: resgatar a leitura profunda como prática intencional.

Isso exige disciplina e mudança de hábitos.

Criar momentos específicos para leitura sem distrações, equilibrar conteúdos rápidos com leituras mais densas e estimular esse hábito desde cedo são caminhos fundamentais.

A boa notícia é que a leitura profunda não foi perdida  ela apenas está sendo negligenciada.

E tudo o que é negligenciado pode ser recuperado.

No fim, a questão não é apenas sobre leitura. É sobre como pensamos, aprendemos e nos posicionamos no mundo.

Porque quem lê com profundidade, não apenas entende melhor o mundo, entende melhor a si mesmo.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Quando deixamos de “achar” para começar a “acreditar


Ednardo Sousa Bezerra Júnior



Em uma recente apresentação de trabalho da treceira instrução do Irmão Halvaro da Loja Maçonica Obreidos da Paz, ouvi uma frase simples, mas profundamente provocadora: “Quando eu aprendo a dizer eu acredito em vez de eu acho.”

A frase, aparentemente sutil, carrega uma diferença significativa na maneira como nos posicionamos diante do conhecimento, da verdade e das nossas próprias convicções.

No cotidiano, usamos a expressão “eu acho” com enorme frequência. Achamos que algo é certo, achamos que determinada opinião faz sentido, achamos que determinada atitude é a melhor. O “achar” muitas vezes nasce de uma impressão momentânea, de uma suposição ou de uma ideia que ainda não foi suficientemente refletida.

O problema não está em achar. Afinal, todo processo de reflexão começa com uma hipótese. O risco está em permanecer apenas no “achar”.

Quando alguém diz “eu acho”, muitas vezes está também se protegendo da responsabilidade que acompanha uma afirmação mais profunda. É uma forma de falar sem assumir plenamente o peso daquilo que está sendo dito.

Já a expressão “eu acredito” tem outra densidade.

Acreditar pressupõe um caminho percorrido. Pressupõe reflexão, estudo, experiência e, muitas vezes, transformação interior. Quando dizemos “eu acredito”, estamos assumindo uma posição construída ao longo do tempo. Estamos dizendo ao mundo que aquela ideia passou por nós, foi examinada e encontrou espaço dentro da nossa consciência.

Nesse sentido, a passagem do “achar” para o “acreditar” representa também um processo de amadurecimento intelectual e moral.

No campo da educação, por exemplo, vemos com frequência estudantes que começam dizendo “eu acho que é assim”. Com o tempo, com o estudo e com o exercício da reflexão crítica, eles passam a dizer “eu acredito nisso porque compreendi, estudei e analisei”.

O mesmo acontece na vida. Nossas opiniões iniciais são, muitas vezes, apenas impressões superficiais. Elas mudam conforme aprendemos, convivemos com outras ideias e ampliamos nossa visão de mundo.

A filosofia, desde a Antiguidade, já nos ensinava que o conhecimento humano nasce da dúvida. Mas a dúvida não pode ser um ponto de chegada. Ela precisa ser um ponto de partida para a construção da convicção.

Nesse caminho, aprendemos algo fundamental: acreditar não significa fechar-se ao diálogo ou à mudança. Pelo contrário. Significa sustentar uma convicção com consciência, sabendo que toda crença madura continua aberta à luz do conhecimento e da razão.

Talvez por isso a frase que ouvi naquela noite tenha me provocado tanto. Ela não fala apenas sobre linguagem. Ela fala sobre responsabilidade intelectual.

Dizer “eu acho” é fácil. Dizer “eu acredito” exige mais, exige estudo, exige reflexão, exige coerência entre pensamento e atitude.

Talvez o verdadeiro crescimento pessoal e espiritual esteja exatamente nesse percurso: sair da superfície das opiniões rápidas e caminhar em direção às convicções que construímos com consciência.

Porque, no fundo, aquilo que acreditamos acaba revelando quem realmente somos.


terça-feira, 3 de março de 2026

8 de Março: memória, protagonismo feminino e desafios que ainda precisamos enfrentar


Ednardo Sousa Bezerra Júnior

 

O 8 de março é muito mais do que uma data para flores, homenagens ou mensagens prontas nas redes sociais. Reconhecido oficialmente pela Organização das Nações Unidas em 1975 como Dia Internacional da Mulher, ele carrega um significado histórico profundo, é um marco das lutas femininas por direitos, dignidade e igualdade.

Sua origem está ligada aos movimentos operários do final do século XIX e início do século XX, quando mulheres trabalhadoras passaram a reivindicar melhores condições de trabalho, redução da jornada exaustiva e salários mais justos. Desde então, a data se consolidou como símbolo mundial da busca por reconhecimento e equidade.



Muito antes do século XX

 

A presença feminina como agente transformadora da história, no entanto, é muito mais antiga. Estudos indicam que, nas sociedades pré-históricas, as mulheres tiveram papel fundamental na observação dos ciclos naturais e na domesticação de plantas e animais. Esse processo foi decisivo para a chamada Revolução Agrícola, permitindo que grupos humanos deixassem de ser nômades e formassem as primeiras comunidades estáveis.

Mesmo assim, por muito tempo, essa participação foi minimizada nas narrativas tradicionais da história.

 

Presença feminina também na tradição cristã

 

Na tradição cristã, encontramos figuras femininas centrais nos momentos mais significativos da vida de Jesus. Maria, sua mãe, Maria Madalena e Maria de Cléofas permanecem firmes até a crucificação, enquanto muitos discípulos se afastam por medo.

Essa permanência simboliza coragem, fidelidade e testemunho, valores que atravessam séculos e ajudam a compreender a força da presença feminina nos grandes acontecimentos da humanidade.

 

Protagonismo feminino no Brasil contemporâneo

 

No Brasil, o protagonismo feminino se manifesta de forma concreta e transformadora em diversas áreas.

Na educação, o legado de Nísia Floresta, no século XIX, foi pioneiro na defesa do direito das mulheres à educação científica e à igualdade de direitos. Considerada a primeira feminista brasileira, sua atuação abriu caminhos para gerações futuras.

Na ciência e na saúde pública, mulheres seguem ocupando espaços estratégicos. A atuação de Nísia Trindade Lima reforça a importância da ciência na formulação de políticas públicas. Na pesquisa biomédica, Tatiana Coelho-Sampaio desenvolve estudos sobre a polilaminina, com potencial na regeneração de tecidos e no tratamento de lesões do sistema nervoso.

Durante a pandemia de COVID-19, a biomédica Jaqueline Góes de Jesus ganhou reconhecimento internacional ao integrar a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil, evidenciando a competência técnica e a relevância da participação feminina na ciência de ponta.

No campo socioambiental, Marina Silva tornou-se referência internacional na defesa da sustentabilidade e na construção de políticas de preservação ambiental.

 

Avanços e desafios

 

É inegável que houve avanços significativos. Hoje, mulheres apresentam, em média, maior escolaridade em diversos contextos. Ocupam espaços acadêmicos, políticos e científicos com cada vez mais visibilidade.

Entretanto, ainda persistem desafios importantes: desigualdade salarial, sub-representação em cargos de liderança, sobrecarga decorrente da dupla jornada de trabalho e altos índices de violência de gênero.

A luta por igualdade não pertence ao passado ela continua sendo um compromisso do presente.

 

Um convite à reflexão

 

O 8 de março não deve ser apenas comemorado; deve ser compreendido. É um dia de memória histórica, de reconhecimento das conquistas, mas também de renovação do compromisso com a construção de uma sociedade mais justa.

Celebrar o Dia Internacional da Mulher é reconhecer que a história humana sempre foi construída também pelas mãos femininas, mãos que educam, pesquisam, cuidam, lideram, transformam e constroem caminhos de convivência mais humana e solidária.

Mais do que uma data, é um convite permanente à reflexão e à ação.

 

BIBLIOGRAFIA

ABREU, Alzira Alves de et al. (org.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: FGV, 2010. (Ver verbete: Marina Silva).

ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense, 2017.

COELHO-SAMPAIO, Tatiana. Polilaminina: aplicações terapêuticas e regeneração do sistema nervoso. Journal of Biomedical Science, v. 26, n. 1, 2019.

GÓES DE JESUS, Jaqueline et al. First complete genome sequence of SARS-CoV-2 in Brazil. Virological.org, 2020.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Recife: Typographia de M. F. de Faria, 1832. (Edição fac-similar: Brasília: Senado Federal, 2019).

HAHNER, June Edith. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2003.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). História do Dia Internacional da Mulher. Nova York: ONU, 1975. Disponível em: https://www.un.org. Acesso em: 2 mar. 2026.

SILVA, Marina. Marina: a vida por uma causa. São Paulo: Objetiva, 2010.

A MAÇONARIA ALÉM DAS COLUNAS DO TEMPLO: RESPEITO, TOLERÂNCIA E RESPONSABILIDADE NO MUNDO PROFANO

  Ednardo Sousa Bezerra Jr. M ∴ M ∴ No Ritual de Aprendiz, uma passagem desperta em mim uma reflexão que considero importante fazer uma ...