segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Orelhão: quando o silêncio atende do outro lado

    Ednardo Sousa Bezerra Júnior

 

Na minha adolescência, usei muito o orelhão. Hoje, o que resta é a nostalgia, essa ligação que nunca cai, mesmo quando tudo ao redor muda.

O orelhão, esse abrigo improvisado de vozes e segredos, caminha para o fim. Com o encerramento das concessões da telefonia fixa entre 2025 e 2026, ele começa a desaparecer das ruas, como quem sai devagar para não fazer barulho. A tecnologia avança, os smartphones dominam o mundo, e o velho companheiro urbano vai sendo desligado, pouco a pouco.

“Só agora caiu a ficha.” A expressão atravessou o tempo e permaneceu viva, mesmo depois que as fichas deixaram de existir, substituídas pelos cartões telefônicos e, mais tarde, pelo toque silencioso das telas. O celular calou o orelhão quando a cidade já começava a esquecê-lo.

Por muito tempo, foi pelos fios do telefone que passaram as nossas histórias. Histórias de alegria e de tristeza, de urgência e de espera. Ali, matamos saudades, fizemos juras de amor às pressas, escutamos vozes que vinham de longe. Vozes de mães, pais, irmãos, filhos, amigos distantes, vozes que aqueciam o coração antes mesmo de completar a ligação.

Hoje, na era da comunicação instantânea, quase não esperamos. Quase não ouvimos o silêncio entre uma palavra e outra. O orelhão, com sua lentidão e seus limites, nos ensinava a valorizar cada minuto, cada frase, cada “alô”.

Ele será aposentado de vez. Mas não some por completo. Fica na memória afetiva, na linguagem que ainda repetimos sem perceber, e nas lembranças de quem um dia encostou o ouvido naquele fone gasto, tentando matar a saudade de alguém.

Quando o último orelhão se calar, não será apenas um aparelho que deixará as ruas. Será o silêncio de um tempo em que esperar fazia parte do encontro. Algumas tecnologias se despedem; as memórias, não. Elas continuam chamando, mesmo sem fio, mesmo sem discar.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Saúde mental na Educação Infantil e no Ensino Fundamental: um desafio urgente para a gestão escolar


Saúde mental na Educação Infantil e no Ensino Fundamental: um desafio urgente para a gestão escolar

Ednardo Sousa Bezerra Junior



Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tema restrito à área da saúde para ocupar um lugar central nos debates educacionais. Cada vez mais cedo, crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental apresentam sinais de sofrimento emocional que impactam diretamente o processo de aprendizagem, o comportamento e as relações dentro da escola.

Ansiedade, dificuldades de autorregulação emocional, isolamento, agressividade e queda no rendimento escolar não são fenômenos isolados. Eles refletem um cenário mais amplo, evidenciado por pesquisas recentes de instituições como a Fiocruz, o IBGE e o Ministério da Saúde, que apontam o crescimento de transtornos mentais desde a infância, muitos deles não identificados ou acompanhados de forma adequada.

Estudos indicam que cerca de 50% dos transtornos mentais têm início antes dos 14 anos. Isso significa que a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental são etapas decisivas para a prevenção e o cuidado. No entanto, ainda é comum que sinais de sofrimento psíquico sejam interpretados apenas como “fase”, “birra”, “falta de limites” ou dificuldades pedagógicas.

Quando isso acontece, perde-se a oportunidade de intervir precocemente, fortalecendo fatores de proteção emocional e evitando agravamentos futuros que podem levar, na adolescência e juventude, a quadros mais severos.

A escola é um dos principais espaços de socialização da criança. É nela que vínculos são construídos, emoções são expressas e comportamentos se manifestam de forma cotidiana. Por isso, a instituição escolar ocupa uma posição estratégica na promoção da saúde mental.

Promover saúde mental na escola não significa substituir o papel da família ou dos serviços de saúde, mas sim criar um ambiente acolhedor, previsível e seguro, onde a criança se sinta pertencente e respeitada. Rotinas bem organizadas, relações afetivas positivas, escuta atenta e práticas pedagógicas sensíveis ao desenvolvimento emocional fazem toda a diferença, especialmente na Educação Infantil.

Os dados mostram que a saúde mental não é apenas uma questão individual ou clínica, ela é também um desafio de gestão escolar. Cabe à gestão criar condições institucionais para que o cuidado aconteça de forma organizada e responsável.

Isso envolve:

  • investir na formação continuada de professores e equipes pedagógicas;

  • construir protocolos de observação, acolhimento e encaminhamento;

  • fortalecer o diálogo e a parceria com as famílias;

  • articular-se com a rede de proteção social, incluindo saúde e assistência social;

  • incorporar a saúde mental ao Projeto Político-Pedagógico (PPP).

Quando a escola assume essa postura, ela deixa de atuar apenas de forma reativa e passa a construir uma cultura institucional baseada no cuidado, na prevenção e no desenvolvimento integral.

Pesquisas recentes mostram que jovens são hoje o grupo que mais sofre internações por transtornos mentais, embora tenham sido crianças que, muitas vezes, não receberam apoio emocional adequado em fases anteriores da escolarização. Esse dado reforça uma verdade importante: cuidar da saúde mental na infância é investir no futuro.

A Educação Infantil e o Ensino Fundamental não são apenas etapas de alfabetização e aprendizagem de conteúdos, mas momentos decisivos para a formação emocional, social e humana das crianças.

Falar de saúde mental na escola é falar de empatia, escuta, responsabilidade e compromisso social. É reconhecer que educar vai muito além do currículo e que o bem-estar emocional é condição essencial para aprender.


Que possamos, enquanto gestores, professores e educadores, olhar para nossas escolas como espaços onde o cuidado também educa  e onde cada criança é vista em sua integralidade.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Vaidade, Fraternidade e Dever Maçônico

     Ednardo Sousa Bezerra Jr

O caminho maçônico se inicia no Grau de Aprendiz, quando o homem adentra o Templo trazendo consigo as marcas do mundo profano e uma pedra ainda bruta. Nesse primeiro passo, aprende que o silêncio, a humildade e a escuta são instrumentos indispensáveis. É ali que compreende que os vícios,  especialmente a vaidade,  precisam ser contidos, pois endurecem a pedra e impedem o trabalho. O Aprendiz é chamado a vigiar a si mesmo, a respeitar seus irmãos e a entender que o verdadeiro labor começa no interior.

No Grau de Companheiro, o obreiro já conhece melhor seus instrumentos e passa a compreender o valor do trabalho coletivo. Aprende que o crescimento individual só faz sentido quando contribui para a harmonia da Obra comum. Nesse estágio, a vaidade se manifesta de forma ainda mais sutil, pois o conhecimento adquirido pode iludir o espírito. Cabe ao Companheiro lembrar que saber não é dominar, mas servir; que caminhar mais adiante não significa caminhar acima. O cuidado e o companheirismo entre irmãos tornam-se sinais visíveis do progresso moral.

Ao alcançar o Grau de Mestre, o maçom é confrontado com a responsabilidade do exemplo. Já não basta aprender ou executar; é preciso sustentar a Obra com equilíbrio, justiça e fraternidade. O Mestre compreende que a vaidade, quando não vencida, pode comprometer toda a edificação. Por isso, seu maior ensinamento não está na palavra, mas na atitude serena, no acolhimento fraterno e na capacidade de unir, mesmo em meio às diferenças.

Em todos os graus, uma verdade permanece imutável: as dificuldades do mundo profano, por mais duras que sejam, não diminuem nem suspendem as obrigações maçônicas. Pelo contrário, é fora do Templo que os ensinamentos recebidos devem se manifestar com maior clareza. O compromisso assumido diante do Altar não se encerra com o fechar das Colunas; ele acompanha o maçom em sua família, em seu trabalho e em sua relação com a sociedade.

Ser maçom apenas em Loja é incompleto. Ser maçom na vida cotidiana é a prova real da iniciação. É no agir discreto, na ética diária, na mão estendida ao irmão e na postura justa diante do mundo que se confirma a autenticidade do caminho percorrido.

Que Aprendizes, Companheiros e Mestres jamais se esqueçam de que todos trabalham na mesma construção, cada qual em seu tempo e em sua função. Que a VAIDADE seja contida, que a fraternidade seja fortalecida e que a Luz recebida no Templo ilumine, sobretudo, os caminhos do mundo profano.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Liberdade Inacabada: Maçonaria, Abolição e a Luta Negra que Ainda Ecoa no Brasil



Ednardo Sousa Bezerra Jr

A história da liberdade no Brasil é marcada por avanços importantes, mas também por contradições profundas. A Maçonaria, com seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, teve papel significativo na luta abolicionista ao oferecer espaço para debates, articulações políticas e ações concretas em defesa da emancipação dos escravizados. Figuras como José Bonifácio, Luís Gama, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, todos ligados à Maçonaria, contribuíram decisivamente para que a Lei Áurea fosse possível.

No entanto, o fim formal da escravidão em 1888 não significou a eliminação imediata de práticas violentas ou discriminatórias. Um exemplo emblemático é o caso da Marinha brasileira, que, mesmo após a abolição, continuou a aplicar castigos físicos, prática autorizada durante o governo de Marechal Deodoro da Fonseca, ele próprio um maçom. Esse episódio revela a complexidade da história: homens que defendiam a liberdade em determinados contextos permaneceram, em outros, presos a estruturas autoritárias e desumanas herdadas do período escravocrata.

Essa contradição histórica evidencia que a abolição foi apenas um passo, e não a chegada ao destino final. Sem políticas de inclusão, reparação ou proteção, a população negra permaneceu vulnerável e marginalizada. Por isso, ainda hoje, o Brasil enfrenta as marcas profundas do racismo estrutural: desigualdade de oportunidades, discriminação cotidiana, violência e exclusão social.

É nesse contexto que o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, se torna essencial. A data, simbolizada pela resistência de Zumbi dos Palmares, nos lembra que a luta pela liberdade é contínua. Ela exige reflexão sobre o passado, reconhecimento das injustiças presentes e compromisso com a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.

Assim, ao revisitar a atuação da Maçonaria na abolição, as contradições pós-1888 e o significado da Consciência Negra, reafirmamos que a verdadeira liberdade não é apenas a ausência de correntes, mas a presença de dignidade, respeito e equidade para todos. A história nos chama a agir, ontem, hoje e sempre,pela construção de um Brasil mais justo e humano.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

A Escada de Jacó

Símbolo de ascensão espiritual



A Escada de Jacó é um dos símbolos mais enigmáticos e inspiradores das tradições bíblicas, teológicas e esotéricas. Sua origem encontra-se na narrativa do livro de Gênesis (Gn 28:10-19), quando Jacó, em sua jornada, adormeceu em Betel e teve um sonho no qual via uma escada erguendo-se da Terra até o Céu. Anjos subiam e desciam por ela, e, no alto, o Senhor reafirmava sua aliança com os patriarcas.

Essa visão tornou-se, ao longo dos séculos, uma fonte inesgotável de interpretações, tanto na teologia cristã quanto na filosofia espiritual e no simbolismo iniciático da Maçonaria.

Entre o humano e o divino

A escada simboliza a ligação entre o mundo terreno e o espiritual, o elo entre o finito e o infinito, entre a matéria e o espírito. Santo Agostinho, em suas “Confissões”, afirma que cada degrau dessa ascensão representa a superação de paixões e a conquista de virtudes, conduzindo a alma à união com Deus. Orígenes, por sua vez, interpretava a escada como um itinerário de purificação interior, no qual os anjos seriam símbolos das forças espirituais que auxiliam ou provam o homem em sua caminhada.

No campo da mística cristã, a Escada de Jacó inspirou obras como a “Escada do Paraíso”, escrita por São João Clímaco (século VII), que descreve trinta degraus espirituais de ascensão rumo à perfeição.

O olhar maçônico

Na Maçonaria, a Escada de Jacó é compreendida como alegoria da evolução humana. Cada degrau representa um estágio de progresso moral, intelectual e espiritual. O maçom, ao subir por essa escada simbólica, vai deixando para trás vícios e ilusões, aproximando-se da Luz e da Verdade. Como ensinam antigos rituais: “O caminho da perfeição é feito de degraus; cada virtude conquistada é um passo mais alto na escada da sabedoria”.

Assim, a escada torna-se também símbolo da própria condição humana: um ser em constante movimento, chamado a subir com perseverança, fé e disciplina.

A dinâmica da ascensão

Os anjos que sobem e descem a escada representam o intercâmbio contínuo entre Céu e Terra, lembrando-nos que a vida espiritual não é estática, mas dinâmica. Trata-se de um fluxo constante de aprendizado, queda, superação e crescimento. Tomás de Aquino já afirmava que a perfeição da vida cristã não está em nunca cair, mas em levantar-se sempre, com humildade e confiança na graça divina.

Conclusão: um convite à elevação

A Escada de Jacó nos recorda que todos estamos em uma jornada. Alguns em degraus mais baixos, outros mais altos, mas todos chamados a ascender em direção à luz. Esse símbolo nos ensina paciência, constância e fé, pois a verdadeira subida não acontece fora, mas no interior da alma.

Na perspectiva bíblica, teológica e maçônica, a escada é, sobretudo, um convite à elevação, um apelo à busca de sabedoria e à união com o Divino. Em cada degrau, um aprendizado; em cada passo, uma vitória sobre nós mesmos.

Referências

  • Bíblia Sagrada, Gênesis 28:10-19.

  • AGOSTINHO, Santo. Confissões.

  • ORÍGENES. Homilias sobre o Gênesis.

  • CLÍMACO, São João. A Escada do Paraíso.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Modernização e Inovação na Maçonaria: Um Chamado ao Presente

 




Profº Ednardo Sousa Bezerra Júnior


A Maçonaria é uma instituição antiga, repleta de símbolos e tradições que atravessaram séculos. Essa herança é o que lhe dá identidade, força e permanência. Mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o mundo mudou e continua mudando em um ritmo acelerado. Diante disso, surge a pergunta: como a Maçonaria pode continuar viva e relevante sem perder a sua essência?

Modernizar não é romper com o passado, mas sim reinterpretá-lo à luz dos novos tempos. Durante muito tempo, as mudanças dentro da Ordem se limitaram a ajustes nos rituais ou na administração. Esse modelo funcionou no passado, mas hoje já não basta. Vivemos em um mundo conectado, diverso, tecnológico e repleto de novos desafios sociais e culturais. Se a Maçonaria quiser continuar sendo um espaço de reflexão e crescimento humano, precisa se abrir a essas transformações.

Isso significa, por exemplo, usar melhor a comunicação digital  não para expor segredos, mas para mostrar à sociedade a importância de valores como fraternidade, liberdade e solidariedade. Significa também acolher a diversidade, permitindo que pessoas de diferentes gerações, culturas e trajetórias possam encontrar na Maçonaria um espaço de diálogo e aprendizado.

Outro caminho é reforçar a presença social da Ordem. A Maçonaria sempre teve em sua essência o compromisso de contribuir para uma sociedade mais justa. Hoje, isso pode se traduzir em projetos comunitários, ações educativas e iniciativas de solidariedade que mostrem, na prática, que os princípios defendidos em loja também se realizam no mundo lá fora.

Modernizar, portanto, não é abandonar os rituais, os símbolos ou as tradições. Pelo contrário: é garantir que eles continuem tendo sentido para as novas gerações. É dar vida ao que já existe, adaptando a linguagem sem perder a mensagem.
Em um mundo de tantas mudanças, a Maçonaria tem diante de si uma oportunidade única: mostrar que seus valores, mesmo antigos, são atemporais e continuam sendo faróis para a construção de um futuro mais humano e fraterno.
 
Para refletir
Referências
“A tradição não é adoração às cinzas, mas a preservação do fogo.” — Gustav Mahler

 

 


Orelhão: quando o silêncio atende do outro lado

    Ednardo Sousa Bezerra Júnior   Na minha adolescência, usei muito o orelhão. Hoje, o que resta é a nostalgia, essa ligação que nunca cai...