Uma reflexão à luz da Maçonaria
Ednardo Sousa Bezerra Junior
A Maçonaria, enquanto instituição iniciática,
filosófica e educativa, sempre compreendeu que o poder só é legítimo quando
exercido com sabedoria, equilíbrio e espírito de serviço. Essa compreensão nos
convida a refletir sobre o conceito de gestão democrática e, especialmente,
sobre a alternância de poder, não apenas no campo político, mas também nas
organizações sociais, educacionais e, de modo muito próprio, nas Lojas
Maçônicas.
Em diferentes espaços da vida em sociedade, a
gestão representa a forma como decisões são tomadas, responsabilidades são
assumidas e objetivos coletivos são conduzidos. No campo político, a
alternância de poder é um dos pilares da democracia, pois impede a concentração
excessiva de autoridade, renova ideias e garante que o poder permaneça como
instrumento do bem comum, e não como propriedade de indivíduos ou grupos.
Esse mesmo princípio pode ser observado na gestão
escolar, onde a participação da comunidade e a rotatividade das lideranças
favorecem a inovação pedagógica e a formação cidadã; nas associações civis,
onde o poder emana da confiança dos associados e se sustenta na transparência e
no compromisso coletivo; e, de maneira singular, na gestão de uma Loja Maçônica.
Na Maçonaria, a alternância de poder não é
apenas um procedimento administrativo ela é um exercício pedagógico e moral. Os
cargos não existem para enaltecer o indivíduo, mas para servir à Loja,
fortalecer a harmonia e garantir a continuidade dos trabalhos. O Venerável
Mestre, assim como os demais Oficiais, recebe temporariamente a honra e a
responsabilidade de conduzir os Obreiros, sabendo que o comando é passageiro,
mas a Instituição é permanente.
Essa rotatividade de funções permite que
diferentes Irmãos desenvolvam virtudes essenciais à liderança maçônica:
humildade, escuta, prudência, tolerância e senso de coletividade. Ao mesmo
tempo, impede o personalismo, as vaidades e a cristalização de práticas que possam
enfraquecer o espírito fraterno da Loja.
Diferentemente da gestão política partidária,
onde o conflito de ideias é inerente ao processo, a gestão maçônica se orienta
pela busca do consenso, pelo respeito às tradições e pela preservação da
harmonia. A alternância de poder, nesse contexto, não rompe com a identidade da
Loja, mas a fortalece, pois assegura que o trabalho iniciado por um Irmão seja
continuado por outro, sempre sob os mesmos princípios, valores e Landmarks.
É importante compreender que liderar, na
Maçonaria, não é mandar, mas servir. O poder exercido com sabedoria é aquele
que forma novos líderes, prepara sucessores e garante que a Loja não dependa de
nomes, mas de princípios. Uma Loja verdadeiramente forte é aquela que funciona
bem independentemente de quem ocupa os cargos, pois está alicerçada na
participação consciente de todos os seus membros.
Uma das responsabilidades mais nobres dos
Mestres Instalados é orientar aqueles que recentemente alcançaram o Grau de
Mestre. A experiência adquirida ao longo do tempo não deve ser guardada como
privilégio, mas compartilhada como ensinamento, exemplo e estímulo à
participação consciente na vida administrativa da Loja.
Cabe aos Mestres mais experientes incentivar
os Mestres mais novos a compreenderem que a Maçonaria não se sustenta apenas
nos trabalhos ritualísticos, mas também no compromisso com a gestão, com o
planejamento e com a condução responsável da Oficina. Participar da
administração da Loja é, igualmente, um ato de aperfeiçoamento moral e de serviço
à Ordem.
Ao orientar e incluir, os Mestres Instalados
contribuem para a formação de novas lideranças, fortalecendo a continuidade dos
trabalhos e evitando que o conhecimento fique restrito a poucos. A Loja cresce
quando todos se sentem parte do processo, quando há espaço para aprender,
errar, corrigir e evoluir sob a orientação fraterna dos que já trilharam esse
caminho.
Nesse sentido, é igualmente necessário
refletir sobre o cuidado com a perpetuação de pequenos grupos no exercício do
poder. A concentração prolongada de funções nas mãos de poucos Irmãos, ainda
que bem-intencionada, pode enfraquecer a harmonia, limitar a participação e
contrariar o princípio da alternância, tão caro à tradição maçônica.
A Maçonaria nos ensina que o poder não deve se
cristalizar, mas circular; não deve separar, mas unir; não deve servir a
grupos, mas à Loja como um todo. Quando a administração se abre à participação
e à renovação, preserva-se a fraternidade, fortalece-se a democracia interna e
garante-se que a Instituição permaneça maior do que quaisquer interesses
individuais.
Que os Mestres Instalados, conscientes de sua
responsabilidade, sejam exemplos de humildade, orientação e desprendimento,
formando sucessores e preparando o futuro da Loja. E que os Mestres mais novos
compreendam que assumir responsabilidades é parte do caminho do
aperfeiçoamento, da construção coletiva e do verdadeiro espírito maçônico.
Assim, ao refletirmos sobre gestão democrática
e alternância de poder, reafirmamos uma verdade essencial da Ordem: a Maçonaria
ensina, pelo exemplo, que a autoridade só é legítima quando temporária,
compartilhada e exercida com retidão moral.
Espero essa reflexão nos ajude a compreender
que cada função ocupada em Loja é uma oportunidade de crescimento interior e de
serviço ao coletivo, e que a alternância não representa perda, mas continuidade,
aprendizado e fortalecimento da Instituição.
