Ednardo Sousa Bezerra Júnior
Na minha adolescência, usei muito o orelhão. Hoje, o que resta é a nostalgia, essa ligação que nunca cai, mesmo quando tudo ao redor muda.
O orelhão, esse abrigo improvisado de vozes e segredos, caminha para o fim. Com o encerramento das concessões da telefonia fixa entre 2025 e 2026, ele começa a desaparecer das ruas, como quem sai devagar para não fazer barulho. A tecnologia avança, os smartphones dominam o mundo, e o velho companheiro urbano vai sendo desligado, pouco a pouco.
“Só agora caiu a ficha.” A expressão atravessou o tempo e permaneceu viva, mesmo depois que as fichas deixaram de existir, substituídas pelos cartões telefônicos e, mais tarde, pelo toque silencioso das telas. O celular calou o orelhão quando a cidade já começava a esquecê-lo.
Por muito tempo, foi pelos fios do telefone que passaram as nossas histórias. Histórias de alegria e de tristeza, de urgência e de espera. Ali, matamos saudades, fizemos juras de amor às pressas, escutamos vozes que vinham de longe. Vozes de mães, pais, irmãos, filhos, amigos distantes, vozes que aqueciam o coração antes mesmo de completar a ligação.
Hoje, na era da comunicação instantânea, quase não esperamos. Quase não ouvimos o silêncio entre uma palavra e outra. O orelhão, com sua lentidão e seus limites, nos ensinava a valorizar cada minuto, cada frase, cada “alô”.
Ele será aposentado de vez. Mas não some por completo. Fica na memória afetiva, na linguagem que ainda repetimos sem perceber, e nas lembranças de quem um dia encostou o ouvido naquele fone gasto, tentando matar a saudade de alguém.
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