terça-feira, 3 de março de 2026

8 de Março: memória, protagonismo feminino e desafios que ainda precisamos enfrentar


Ednardo Sousa Bezerra Júnior

 

O 8 de março é muito mais do que uma data para flores, homenagens ou mensagens prontas nas redes sociais. Reconhecido oficialmente pela Organização das Nações Unidas em 1975 como Dia Internacional da Mulher, ele carrega um significado histórico profundo, é um marco das lutas femininas por direitos, dignidade e igualdade.

Sua origem está ligada aos movimentos operários do final do século XIX e início do século XX, quando mulheres trabalhadoras passaram a reivindicar melhores condições de trabalho, redução da jornada exaustiva e salários mais justos. Desde então, a data se consolidou como símbolo mundial da busca por reconhecimento e equidade.



Muito antes do século XX

 

A presença feminina como agente transformadora da história, no entanto, é muito mais antiga. Estudos indicam que, nas sociedades pré-históricas, as mulheres tiveram papel fundamental na observação dos ciclos naturais e na domesticação de plantas e animais. Esse processo foi decisivo para a chamada Revolução Agrícola, permitindo que grupos humanos deixassem de ser nômades e formassem as primeiras comunidades estáveis.

Mesmo assim, por muito tempo, essa participação foi minimizada nas narrativas tradicionais da história.

 

Presença feminina também na tradição cristã

 

Na tradição cristã, encontramos figuras femininas centrais nos momentos mais significativos da vida de Jesus. Maria, sua mãe, Maria Madalena e Maria de Cléofas permanecem firmes até a crucificação, enquanto muitos discípulos se afastam por medo.

Essa permanência simboliza coragem, fidelidade e testemunho, valores que atravessam séculos e ajudam a compreender a força da presença feminina nos grandes acontecimentos da humanidade.

 

Protagonismo feminino no Brasil contemporâneo

 

No Brasil, o protagonismo feminino se manifesta de forma concreta e transformadora em diversas áreas.

Na educação, o legado de Nísia Floresta, no século XIX, foi pioneiro na defesa do direito das mulheres à educação científica e à igualdade de direitos. Considerada a primeira feminista brasileira, sua atuação abriu caminhos para gerações futuras.

Na ciência e na saúde pública, mulheres seguem ocupando espaços estratégicos. A atuação de Nísia Trindade Lima reforça a importância da ciência na formulação de políticas públicas. Na pesquisa biomédica, Tatiana Coelho-Sampaio desenvolve estudos sobre a polilaminina, com potencial na regeneração de tecidos e no tratamento de lesões do sistema nervoso.

Durante a pandemia de COVID-19, a biomédica Jaqueline Góes de Jesus ganhou reconhecimento internacional ao integrar a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil, evidenciando a competência técnica e a relevância da participação feminina na ciência de ponta.

No campo socioambiental, Marina Silva tornou-se referência internacional na defesa da sustentabilidade e na construção de políticas de preservação ambiental.

 

Avanços e desafios

 

É inegável que houve avanços significativos. Hoje, mulheres apresentam, em média, maior escolaridade em diversos contextos. Ocupam espaços acadêmicos, políticos e científicos com cada vez mais visibilidade.

Entretanto, ainda persistem desafios importantes: desigualdade salarial, sub-representação em cargos de liderança, sobrecarga decorrente da dupla jornada de trabalho e altos índices de violência de gênero.

A luta por igualdade não pertence ao passado ela continua sendo um compromisso do presente.

 

Um convite à reflexão

 

O 8 de março não deve ser apenas comemorado; deve ser compreendido. É um dia de memória histórica, de reconhecimento das conquistas, mas também de renovação do compromisso com a construção de uma sociedade mais justa.

Celebrar o Dia Internacional da Mulher é reconhecer que a história humana sempre foi construída também pelas mãos femininas, mãos que educam, pesquisam, cuidam, lideram, transformam e constroem caminhos de convivência mais humana e solidária.

Mais do que uma data, é um convite permanente à reflexão e à ação.

 

BIBLIOGRAFIA

ABREU, Alzira Alves de et al. (org.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: FGV, 2010. (Ver verbete: Marina Silva).

ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense, 2017.

COELHO-SAMPAIO, Tatiana. Polilaminina: aplicações terapêuticas e regeneração do sistema nervoso. Journal of Biomedical Science, v. 26, n. 1, 2019.

GÓES DE JESUS, Jaqueline et al. First complete genome sequence of SARS-CoV-2 in Brazil. Virological.org, 2020.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Recife: Typographia de M. F. de Faria, 1832. (Edição fac-similar: Brasília: Senado Federal, 2019).

HAHNER, June Edith. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2003.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). História do Dia Internacional da Mulher. Nova York: ONU, 1975. Disponível em: https://www.un.org. Acesso em: 2 mar. 2026.

SILVA, Marina. Marina: a vida por uma causa. São Paulo: Objetiva, 2010.

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