Ednardo Sousa Bezerra Jr.
M∴M∴
No Ritual de
Aprendiz, uma passagem desperta em mim uma reflexão que considero importante
fazer uma reflexão. Quando o Venerável Mestre pergunta ao Irmão Chanceler “o
que é a Maçonaria”, recebe como resposta que a maçonaria é, “uma instituição
que tem por objetivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento
dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à
crença de cada um”. Diante dessa definição, surge uma questão que merece nossa
atenção. Será que estamos aplicando esses princípios apenas dentro do templo, ou
estamos verdadeiramente levando-os para a nossa vida cotidiana?
Acredito que a
Maçonaria não deve ser compreendida apenas como uma instituição na qual
aprendemos símbolos, participamos de rituais e convivemos fraternalmente com
nossos Irmãos. Ela deve representar, sobretudo, um compromisso permanente com o
aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual de cada um de nós.
O templo é o
espaço em que nos reunimos para estudar, refletir e trabalhar simbolicamente
sobre a pedra bruta. Entretanto, no mundo profano, em nossas casas, no
trabalho, nas relações sociais e na participação na vida pública, somos
constantemente chamados a demonstrar os resultados desse trabalho de lapidação.
O amor, a
tolerância e o aperfeiçoamento dos costumes não podem permanecer restritos ao
discurso. Precisam manifestar-se em nossas palavras, escolhas e atitudes.
Quando nos referimos a uma pessoa de maneira ofensiva, utilizando expressões
homofóbicas, injúrias raciais ou manifestações de intolerância religiosa,
estamos nos afastando dos princípios de respeito à dignidade humana que afirmamos
defender. Da mesma forma, quando desqualificamos alguém simplesmente por
possuir uma preferência política diferente da nossa, corremos o risco de
transformar nossas convicções pessoais em instrumentos de intolerância.
É legítimo
discordar, criticar ideias, questionar decisões e denunciar irregularidades. O
que não devemos confundir é o direito de discordar com o propósito de humilhar,
discriminar ou ofender. Um homem de bons costumes não é aquele que concorda com
todos, mas aquele que consegue discordar sem abandonar o respeito, defender
suas convicções sem desprezar as convicções alheias e reconhecer que sua
própria maneira de pensar não lhe concede o monopólio da verdade. A tolerância
não exige que renunciemos às nossas ideias; exige que reconheçamos a dignidade
de quem pensa de maneira diferente.
Outro princípio
presente na definição de Maçonaria é o respeito à autoridade. Esse ensinamento
merece ser analisado com cuidado, especialmente diante das relações que
mantemos com as instituições e com aqueles que exercem funções de
responsabilidade pública. No convívio social, existem autoridades e estruturas
hierárquicas estabelecidas por leis, regimentos, estatutos e outros
instrumentos normativos. O respeito a essas estruturas contribui para a
organização da sociedade, para a convivência coletiva e para o funcionamento
das instituições. Entretanto, respeitar uma autoridade não significa
considerá-la infalível, concordar com todas as suas decisões ou deixar de
questionar possíveis irregularidades. Respeitar a autoridade não é renunciar ao
pensamento crítico; é exercer a crítica com responsabilidade, fundamento e
respeito à dignidade humana.
Se consideramos
que alguém que ocupa um cargo público praticou um ato irregular, temos o
direito e, em determinadas circunstâncias, o dever de questioná-lo. Podemos
apresentar denúncias, solicitar esclarecimentos e cobrar providências pelos
meios legalmente estabelecidos. O que precisamos evitar é transformar suspeitas
em condenações antecipadas ou utilizar expressões ofensivas como se a nossa
opinião pessoal fosse suficiente para estabelecer a culpa de alguém.
Chamar
indiscriminadamente uma autoridade de ladrão, por exemplo, sem fundamentos que
sustentem essa acusação, pode representar uma manifestação irresponsável e
incompatível com o compromisso de agir com prudência e honestidade. Isso não
significa que toda crítica contundente seja desrespeitosa, nem que as
autoridades estejam acima do julgamento da sociedade. Significa que devemos
distinguir a crítica fundamentada do insulto, a cobrança legítima da
perseguição pessoal e a responsabilização legal da condenação precipitada.
O respeito às
hierarquias institucionais deve caminhar junto com a igualdade perante a lei e
com a responsabilidade de todos por seus atos. Quem ocupa uma posição de
autoridade também está sujeito às normas que regem sua função e deve responder
por eventuais irregularidades conforme os procedimentos aplicáveis. O respeito
institucional não deve servir para proteger privilégios, silenciar
questionamentos ou encobrir injustiças, mas contribuir para que as relações
sejam conduzidas com civilidade, responsabilidade e observância das normas
legítimas.
Essa mesma
coerência entre princípios e atitudes precisa estar presente em nossa vida
familiar e conjugal. Afinal, de que adianta defender a fraternidade dentro da
Loja se, fora dela, tratamos com desprezo aqueles que não compartilham de
nossas opiniões? De que adianta falar de igualdade se utilizamos expressões
discriminatórias? De que adianta defender a liberdade de consciência se não
respeitamos as crenças de outras pessoas? E de que adianta professar o amor, a
honestidade e a lealdade se nossas atitudes dentro de casa contradizem esses
valores?
Nesse contexto,
considero importante refletirmos também sobre a fidelidade conjugal. A traição
matrimonial, quando rompe deliberadamente os compromissos de confiança,
honestidade e lealdade assumidos entre o casal, não é compatível com os
princípios de conduta moral que o maçom se propõe a cultivar. A vida conjugal,
assim como qualquer relação humana significativa, exige responsabilidade,
respeito mútuo e sinceridade. Não se trata de afirmar que o maçom seja um homem
sem falhas, mas de reconhecer que o compromisso com o aperfeiçoamento moral
exige coerência entre aquilo que professamos e a maneira como conduzimos nossas
relações mais íntimas.
A esposa e os
filhos não devem encontrar em nós apenas homens que conhecem os ensinamentos da
Ordem, mas pessoas cuja conduta transmite confiança, segurança e respeito. A
fidelidade, nesse sentido, vai além da ausência de uma traição: envolve honrar
a palavra empenhada, agir com transparência e não utilizar a confiança de quem
nos ama em benefício de interesses pessoais. Não seria coerente defender a
honestidade no templo e agir de maneira desonesta no ambiente familiar, assim
como não seria coerente exigir respeito dos outros sem oferecê-lo àqueles com
quem compartilhamos a vida.
A família, o
ambiente profissional e a sociedade constituem espaços concretos para a prática
dos princípios que estudamos. É nesses lugares que o amor deixa de ser apenas
uma palavra, a tolerância deixa de ser apenas um conceito e a igualdade passa a
ser uma atitude. Da mesma forma, no exercício da cidadania, devemos procurar
agir com equilíbrio, respeitando as instituições, as diferenças e os direitos
dos demais, sem abrir mão de nossa responsabilidade de questionar injustiças e
cobrar o cumprimento das leis.
O maçom não
precisa ser um homem sem opiniões ou posicionamentos. Precisa, sim, procurar
ser um homem cuja maneira de expressar suas opiniões seja compatível com os
princípios que afirma defender. Não devemos utilizar os ensinamentos maçônicos
apenas para avaliar o comportamento dos outros. Precisamos, antes de tudo,
aplicá-los a nós mesmos. O verdadeiro trabalho sobre a pedra bruta exige
coragem para reconhecer nossos preconceitos, controlar nossos impulsos, rever
nossos julgamentos, honrar nossos compromissos e compreender que a coerência
moral se constrói diariamente.
A reflexão que
apresento não tem a intenção de julgar a conduta de nenhum Irmão em particular,
mas de convidar cada um de nós a examinar a própria consciência. Se a Maçonaria
tem por objetivo contribuir para tornar feliz a humanidade, precisamos
compreender que essa missão começa nas pequenas atitudes e nas relações que
construímos todos os dias.
O amor deve
orientar nossas ações. A tolerância deve moderar nossas reações. O
aperfeiçoamento dos costumes deve conduzir nossa busca por uma conduta mais
justa. A igualdade deve recordar-nos que nenhuma pessoa perde sua dignidade por
pensar, crer ou viver de maneira diferente da nossa.
O respeito à
autoridade deve ser compreendido como parte de uma convivência institucional
responsável, sem se transformar em submissão cega, assim como a liberdade de
crítica não deve ser confundida com licença para ofender ou difamar. A
honestidade e a lealdade, por sua vez, devem estar presentes tanto em nossas
relações públicas quanto em nossos compromissos familiares e conjugais.
Acredito que o
maior desafio de um maçom não seja apenas compreender os ensinamentos que
recebe, mas transformá-los em hábitos, atitudes e exemplos. Que possamos,
portanto, sair de nossas sessões levando conosco mais do que o conhecimento dos
símbolos e das palavras ritualísticas. Que levemos o compromisso de sermos
melhores pais, melhores esposos, melhores profissionais, melhores cidadãos e,
sobretudo, seres humanos mais conscientes de nossas responsabilidades.
Porque o
trabalho maçônico não termina quando se encerram as portas do templo. É
justamente quando retornamos ao mundo profano que temos a oportunidade de
demonstrar o valor dos ensinamentos que recebemos. Que nossas palavras sejam
respeitosas, nossas críticas sejam responsáveis, nossas atitudes sejam justas,
nossos compromissos sejam honrados e nossos exemplos sejam coerentes com os
princípios que professamos.
Que cada um de
nós continue trabalhando sobre a própria pedra bruta, não para se considerar
superior aos demais, mas para se tornar, a cada dia, uma pessoa mais digna,
fraterna, tolerante, honesta e comprometida com o bem da humanidade.
T∴F∴A
