sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A MAÇONARIA ALÉM DAS COLUNAS DO TEMPLO: RESPEITO, TOLERÂNCIA E RESPONSABILIDADE NO MUNDO PROFANO

 


Ednardo Sousa Bezerra Jr.

M∴M∴

No Ritual de Aprendiz, uma passagem desperta em mim uma reflexão que considero importante fazer uma reflexão. Quando o Venerável Mestre pergunta ao Irmão Chanceler “o que é a Maçonaria”, recebe como resposta que a maçonaria é, “uma instituição que tem por objetivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à crença de cada um”. Diante dessa definição, surge uma questão que merece nossa atenção. Será que estamos aplicando esses princípios apenas dentro do templo, ou estamos verdadeiramente levando-os para a nossa vida cotidiana?

Acredito que a Maçonaria não deve ser compreendida apenas como uma instituição na qual aprendemos símbolos, participamos de rituais e convivemos fraternalmente com nossos Irmãos. Ela deve representar, sobretudo, um compromisso permanente com o aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual de cada um de nós.

O templo é o espaço em que nos reunimos para estudar, refletir e trabalhar simbolicamente sobre a pedra bruta. Entretanto, no mundo profano, em nossas casas, no trabalho, nas relações sociais e na participação na vida pública, somos constantemente chamados a demonstrar os resultados desse trabalho de lapidação.

O amor, a tolerância e o aperfeiçoamento dos costumes não podem permanecer restritos ao discurso. Precisam manifestar-se em nossas palavras, escolhas e atitudes. Quando nos referimos a uma pessoa de maneira ofensiva, utilizando expressões homofóbicas, injúrias raciais ou manifestações de intolerância religiosa, estamos nos afastando dos princípios de respeito à dignidade humana que afirmamos defender. Da mesma forma, quando desqualificamos alguém simplesmente por possuir uma preferência política diferente da nossa, corremos o risco de transformar nossas convicções pessoais em instrumentos de intolerância.

É legítimo discordar, criticar ideias, questionar decisões e denunciar irregularidades. O que não devemos confundir é o direito de discordar com o propósito de humilhar, discriminar ou ofender. Um homem de bons costumes não é aquele que concorda com todos, mas aquele que consegue discordar sem abandonar o respeito, defender suas convicções sem desprezar as convicções alheias e reconhecer que sua própria maneira de pensar não lhe concede o monopólio da verdade. A tolerância não exige que renunciemos às nossas ideias; exige que reconheçamos a dignidade de quem pensa de maneira diferente.

Outro princípio presente na definição de Maçonaria é o respeito à autoridade. Esse ensinamento merece ser analisado com cuidado, especialmente diante das relações que mantemos com as instituições e com aqueles que exercem funções de responsabilidade pública. No convívio social, existem autoridades e estruturas hierárquicas estabelecidas por leis, regimentos, estatutos e outros instrumentos normativos. O respeito a essas estruturas contribui para a organização da sociedade, para a convivência coletiva e para o funcionamento das instituições. Entretanto, respeitar uma autoridade não significa considerá-la infalível, concordar com todas as suas decisões ou deixar de questionar possíveis irregularidades. Respeitar a autoridade não é renunciar ao pensamento crítico; é exercer a crítica com responsabilidade, fundamento e respeito à dignidade humana.

Se consideramos que alguém que ocupa um cargo público praticou um ato irregular, temos o direito e, em determinadas circunstâncias, o dever de questioná-lo. Podemos apresentar denúncias, solicitar esclarecimentos e cobrar providências pelos meios legalmente estabelecidos. O que precisamos evitar é transformar suspeitas em condenações antecipadas ou utilizar expressões ofensivas como se a nossa opinião pessoal fosse suficiente para estabelecer a culpa de alguém.

Chamar indiscriminadamente uma autoridade de ladrão, por exemplo, sem fundamentos que sustentem essa acusação, pode representar uma manifestação irresponsável e incompatível com o compromisso de agir com prudência e honestidade. Isso não significa que toda crítica contundente seja desrespeitosa, nem que as autoridades estejam acima do julgamento da sociedade. Significa que devemos distinguir a crítica fundamentada do insulto, a cobrança legítima da perseguição pessoal e a responsabilização legal da condenação precipitada.

O respeito às hierarquias institucionais deve caminhar junto com a igualdade perante a lei e com a responsabilidade de todos por seus atos. Quem ocupa uma posição de autoridade também está sujeito às normas que regem sua função e deve responder por eventuais irregularidades conforme os procedimentos aplicáveis. O respeito institucional não deve servir para proteger privilégios, silenciar questionamentos ou encobrir injustiças, mas contribuir para que as relações sejam conduzidas com civilidade, responsabilidade e observância das normas legítimas.

Essa mesma coerência entre princípios e atitudes precisa estar presente em nossa vida familiar e conjugal. Afinal, de que adianta defender a fraternidade dentro da Loja se, fora dela, tratamos com desprezo aqueles que não compartilham de nossas opiniões? De que adianta falar de igualdade se utilizamos expressões discriminatórias? De que adianta defender a liberdade de consciência se não respeitamos as crenças de outras pessoas? E de que adianta professar o amor, a honestidade e a lealdade se nossas atitudes dentro de casa contradizem esses valores?

Nesse contexto, considero importante refletirmos também sobre a fidelidade conjugal. A traição matrimonial, quando rompe deliberadamente os compromissos de confiança, honestidade e lealdade assumidos entre o casal, não é compatível com os princípios de conduta moral que o maçom se propõe a cultivar. A vida conjugal, assim como qualquer relação humana significativa, exige responsabilidade, respeito mútuo e sinceridade. Não se trata de afirmar que o maçom seja um homem sem falhas, mas de reconhecer que o compromisso com o aperfeiçoamento moral exige coerência entre aquilo que professamos e a maneira como conduzimos nossas relações mais íntimas.

A esposa e os filhos não devem encontrar em nós apenas homens que conhecem os ensinamentos da Ordem, mas pessoas cuja conduta transmite confiança, segurança e respeito. A fidelidade, nesse sentido, vai além da ausência de uma traição: envolve honrar a palavra empenhada, agir com transparência e não utilizar a confiança de quem nos ama em benefício de interesses pessoais. Não seria coerente defender a honestidade no templo e agir de maneira desonesta no ambiente familiar, assim como não seria coerente exigir respeito dos outros sem oferecê-lo àqueles com quem compartilhamos a vida.

A família, o ambiente profissional e a sociedade constituem espaços concretos para a prática dos princípios que estudamos. É nesses lugares que o amor deixa de ser apenas uma palavra, a tolerância deixa de ser apenas um conceito e a igualdade passa a ser uma atitude. Da mesma forma, no exercício da cidadania, devemos procurar agir com equilíbrio, respeitando as instituições, as diferenças e os direitos dos demais, sem abrir mão de nossa responsabilidade de questionar injustiças e cobrar o cumprimento das leis.

O maçom não precisa ser um homem sem opiniões ou posicionamentos. Precisa, sim, procurar ser um homem cuja maneira de expressar suas opiniões seja compatível com os princípios que afirma defender. Não devemos utilizar os ensinamentos maçônicos apenas para avaliar o comportamento dos outros. Precisamos, antes de tudo, aplicá-los a nós mesmos. O verdadeiro trabalho sobre a pedra bruta exige coragem para reconhecer nossos preconceitos, controlar nossos impulsos, rever nossos julgamentos, honrar nossos compromissos e compreender que a coerência moral se constrói diariamente.

A reflexão que apresento não tem a intenção de julgar a conduta de nenhum Irmão em particular, mas de convidar cada um de nós a examinar a própria consciência. Se a Maçonaria tem por objetivo contribuir para tornar feliz a humanidade, precisamos compreender que essa missão começa nas pequenas atitudes e nas relações que construímos todos os dias.

O amor deve orientar nossas ações. A tolerância deve moderar nossas reações. O aperfeiçoamento dos costumes deve conduzir nossa busca por uma conduta mais justa. A igualdade deve recordar-nos que nenhuma pessoa perde sua dignidade por pensar, crer ou viver de maneira diferente da nossa.

O respeito à autoridade deve ser compreendido como parte de uma convivência institucional responsável, sem se transformar em submissão cega, assim como a liberdade de crítica não deve ser confundida com licença para ofender ou difamar. A honestidade e a lealdade, por sua vez, devem estar presentes tanto em nossas relações públicas quanto em nossos compromissos familiares e conjugais.

Acredito que o maior desafio de um maçom não seja apenas compreender os ensinamentos que recebe, mas transformá-los em hábitos, atitudes e exemplos. Que possamos, portanto, sair de nossas sessões levando conosco mais do que o conhecimento dos símbolos e das palavras ritualísticas. Que levemos o compromisso de sermos melhores pais, melhores esposos, melhores profissionais, melhores cidadãos e, sobretudo, seres humanos mais conscientes de nossas responsabilidades.

Porque o trabalho maçônico não termina quando se encerram as portas do templo. É justamente quando retornamos ao mundo profano que temos a oportunidade de demonstrar o valor dos ensinamentos que recebemos. Que nossas palavras sejam respeitosas, nossas críticas sejam responsáveis, nossas atitudes sejam justas, nossos compromissos sejam honrados e nossos exemplos sejam coerentes com os princípios que professamos.

Que cada um de nós continue trabalhando sobre a própria pedra bruta, não para se considerar superior aos demais, mas para se tornar, a cada dia, uma pessoa mais digna, fraterna, tolerante, honesta e comprometida com o bem da humanidade.

 

T∴F∴A

A MAÇONARIA ALÉM DAS COLUNAS DO TEMPLO: RESPEITO, TOLERÂNCIA E RESPONSABILIDADE NO MUNDO PROFANO

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