Saúde mental na Educação Infantil e no Ensino Fundamental: um desafio urgente para a gestão escolar
Ednardo Sousa Bezerra Junior
Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tema restrito à área da saúde para ocupar um lugar central nos debates educacionais. Cada vez mais cedo, crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental apresentam sinais de sofrimento emocional que impactam diretamente o processo de aprendizagem, o comportamento e as relações dentro da escola.
Ansiedade, dificuldades de autorregulação emocional, isolamento, agressividade e queda no rendimento escolar não são fenômenos isolados. Eles refletem um cenário mais amplo, evidenciado por pesquisas recentes de instituições como a Fiocruz, o IBGE e o Ministério da Saúde, que apontam o crescimento de transtornos mentais desde a infância, muitos deles não identificados ou acompanhados de forma adequada.
Estudos indicam que cerca de 50% dos transtornos mentais têm início antes dos 14 anos. Isso significa que a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental são etapas decisivas para a prevenção e o cuidado. No entanto, ainda é comum que sinais de sofrimento psíquico sejam interpretados apenas como “fase”, “birra”, “falta de limites” ou dificuldades pedagógicas.
Quando isso acontece, perde-se a oportunidade de intervir precocemente, fortalecendo fatores de proteção emocional e evitando agravamentos futuros que podem levar, na adolescência e juventude, a quadros mais severos.
A escola é um dos principais espaços de socialização da criança. É nela que vínculos são construídos, emoções são expressas e comportamentos se manifestam de forma cotidiana. Por isso, a instituição escolar ocupa uma posição estratégica na promoção da saúde mental.
Promover saúde mental na escola não significa substituir o papel da família ou dos serviços de saúde, mas sim criar um ambiente acolhedor, previsível e seguro, onde a criança se sinta pertencente e respeitada. Rotinas bem organizadas, relações afetivas positivas, escuta atenta e práticas pedagógicas sensíveis ao desenvolvimento emocional fazem toda a diferença, especialmente na Educação Infantil.
Os dados mostram que a saúde mental não é apenas uma questão individual ou clínica, ela é também um desafio de gestão escolar. Cabe à gestão criar condições institucionais para que o cuidado aconteça de forma organizada e responsável.
Isso envolve:
investir na formação continuada de professores e equipes pedagógicas;
construir protocolos de observação, acolhimento e encaminhamento;
fortalecer o diálogo e a parceria com as famílias;
articular-se com a rede de proteção social, incluindo saúde e assistência social;
incorporar a saúde mental ao Projeto Político-Pedagógico (PPP).
Quando a escola assume essa postura, ela deixa de atuar apenas de forma reativa e passa a construir uma cultura institucional baseada no cuidado, na prevenção e no desenvolvimento integral.
Pesquisas recentes mostram que jovens são hoje o grupo que mais sofre internações por transtornos mentais, embora tenham sido crianças que, muitas vezes, não receberam apoio emocional adequado em fases anteriores da escolarização. Esse dado reforça uma verdade importante: cuidar da saúde mental na infância é investir no futuro.
A Educação Infantil e o Ensino Fundamental não são apenas etapas de alfabetização e aprendizagem de conteúdos, mas momentos decisivos para a formação emocional, social e humana das crianças.
Falar de saúde mental na escola é falar de empatia, escuta, responsabilidade e compromisso social. É reconhecer que educar vai muito além do currículo e que o bem-estar emocional é condição essencial para aprender.
Que possamos, enquanto gestores, professores e educadores, olhar para nossas escolas como espaços onde o cuidado também educa e onde cada criança é vista em sua integralidade.