quarta-feira, 7 de junho de 2017

CAMINHOS PARA COMBATER A EVASÃO ESCOLAR

>> País contabiliza hoje mais de 1,5 milhão de jovens de 15 a 17 anos fora da escola
>> Maior parte dos diretores reconhece o problema, mas ações ainda não são suficientes
>> Visitas de alunos a colegas que abandonaram escola têm contribuído para redução da evasão



Ao lado dos baixos níveis de aprendizagem, a evasão escolar constitui um dos mais graves problemas do Ensino Médio. De acordo com o relatório “Cenário da exclusão escolar no Brasil”, que acaba de ser divulgado pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância e Adolescência (Unicef), existem hoje no país 2,8 milhões de crianças e adolescentes fora da escola. Desse total, 57% (1,6 milhão) são jovens entre 15 e 17 anos.
Os dados revelam que a maioria dos estudantes abandona a escola antes mesmo de completar o Ensino Fundamental. Dos que ingressam no Ensino Médio, um percentual relevante não consegue avançar e acaba desistindo: segundo o Censo Escolar 2015, de cada 100 cem alunos dessa etapa, 12 são reprovados e oito abandonam a escola.
Um dado do relatório do Unicef reforça a importância do combate à exclusão escolar como estratégia de redução das desigualdades: 53% das crianças e adolescentes fora da escola vivem em domicílios com renda per capita de até ½ salário mínimo. Conforme abordamos na edição 5 do boletim Aprendizagem em Foco, entre os homens, o principal fator de risco de evasão é a inserção no mercado de trabalho e entre as mulheres, a gravidez.  (O perfil dos jovens fora da escola foi tema da edição 5 do boletim Aprendizagem em Foco: bit.ly/AprendizagemFoco5)
CAUSAS DA EVASÃO
Dados tabulados pelo Instituto Unibanco das respostas dos diretores ao questionário do Saeb indicam que grande parte dos gestores tem encontrado dificuldades para lidar com o problema: 41% dos estudantes estudam em escolas onde os diretores dizem que as soluções adotadas para reduzir o abandono ainda são insatisfatórias. Outros 5% estão em escolas onde os gestores reconhecem que, apesar de haver esse problema, nada ainda foi feito para combatê-lo. Apenas 24% consideram os resultados de ações contra o abandono satisfatórios.
Para formular ações que efetivamente contribuam para diminuição da evasão escolar, é fundamental que a gestão busque compreender as causas que estão levando os alunos a largarem os estudos. Cada escola tem suas particularidades, com suas fragilidades e potências, e é importante que o diretor, junto com a equipe pedagógica, busque entender o que está causando a evasão para intervir de forma eficaz.
Foi o que foi feito na Unidade Escolar Dona Rosaura Muniz Barreto, em São Miguel do Tapuio (PI). Lá, o índice de evasão era bastante acentuado, em torno de 14%. “Os professores identificaram uma série de problemas. Um deles, na 1ª série [do Ensino Médio] é que os alunos chegavam sem bagagem. Como o professor não tinha um trabalho individualizado com esse aluno, ele evadia”, conta Maria Deusilene Gomes, diretora da escola. Frente a isso, foi desenvolvido um projeto de monitoria, que em um primeiro momento era realizado pelos próprios docentes, com aulas de reforço aos finais de semana para os estudantes com mais dificuldade. Atualmente, outros alunos, que apresentavam mais facilidade com os conteúdos, foram envolvidos na iniciativa. “Alunos que estavam afastados da escola já estão retornando”, comemora. “Além disso, temos depoimentos de alunos da monitoria dizendo que se sentiram mais realizados, fazendo parte daquela turma”, afirma Maria Deusilene.

“SENTIRAM FALTA DE MIM”
O questionário do Saeb também buscou identificar as ações mais comuns nas escolas para “minimizar as faltas dos alunos”, listando algumas atividades para que os diretores classificassem com que frequência eram realizadas naquele ano e naquela escola. Destacam-se aí a comunicação com os pais (seja via comunicados escritos, durante a reunião de pais ou em convocações individuais), além de conversas com os próprios alunos. “Enviar alguém à casa do aluno” aparece como a ação menos comum: 45,6% dos alunos estudam em escolas onde os diretores afirmaram que ela nunca é realizada e outros 40,1%, apenas “algumas vezes”.
Uma solução encontrada por algumas escolas foi envolver os próprios alunos na busca dos colegas evadidos. Na Escola Estadual Adolfina Zamprogno, em Vila Velha (ES), por exemplo, identificados os alunos faltosos, os colegas vão à casa do estudante saber por que ele não está indo às aulas. “Após a visita, eles voltam para nós com o problema identificado e estudamos como nós enquanto escola podemos colaborar para que esse aluno retorne”, explica a diretora Angela Maria Soares.

Ela conta que para esses jovens que retomam os estudos a escola procura dedicar uma atenção especial. E destaca que a participação dos alunos tem sido crucial para o sucesso da iniciativa: “De mais ou menos 30 alunos que nós detectamos que tinham sumido realmente da escola, 18 já retornaram, dizendo que foi muito importante o colega ir à casa dele, porque ele percebeu: ‘sentiram falta de mim; eu também faço parte daquela escola’”.
Francisco Ronildo da Silva, 18, de Campos Sales (CE), foi um desses jovens que reencontraram o caminho da escola graças aos colegas. Sua história é um dos vários relatos que compõem o documentário “Nunca me sonharam”.
No filme, ele conta que foi uma carta enviada por alunos de sua escola – e que ele guarda com carinho –que o motivou a retomar os estudos. A carta trazia os seguintes dizeres:
“Prezado colega Francisco Ronildo da Silva, 
Já faz um tempinho que não nos vemos. Então, resolvemos te convidar pra retornar à nossa escola, que está cada dia mais cheia de surpresas. Aqui podemos nos expressar, perguntar, expor nossas opiniões, ouvir a opinião do outro, tirar conclusões acerca de tudo que está sendo proposto. Não perca mais tempo. Retorne agora mesmo em busca da realização dos seus sonhos. Forte abraço daqueles que não lhe esquecem”.


AÇÃO INTERSETORIAL
Trazer de volta à escola os quase 3 milhões de crianças e adolescentes não é uma responsabilidade apenas da área da Educação; exige a articulação de diversos setores. Diante desse enorme desafio, o Unicef, em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e o Instituto Tim lançaram no dia 1º de junho a Busca Ativa Escolar. Trata-se de uma plataforma, gratuita, que busca auxiliar os munícipios no enfrentamento da exclusão escolar. Por meio do site, de aplicativo ou SMS, é possível enviar um alerta sobre uma criança ou um adolescente que esteja fora da escola. O aviso dá início a uma série de ações realizadas por um grupo intersetorial de profissionais, que “vão desde uma conversa com a família, para entender as causas da exclusão, até o encaminhamento do caso para as áreas responsáveis por garantir a (re)matrícula dessa criança ou desse adolescente, bem como pelo acompanhamento da sua vida educacional”, informa o site do Unicef. As ações são registradas na plataforma, que gera dados que podem nortear o desenvolvimento de políticas públicas. Saiba mais: buscaativaescolar.org.br

FONTE:http://www.institutounibanco.org.br/aprendizagem-em-foco/28/

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